terça-feira, 8 de julho de 2014

Voyeur

   “E, se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o e jogue-o fora”
                                   Mateus 18:9



Lábios fumígenos
de um carvão se apagando
os membros se esforçando e cedendo, se esforçando e cedendo,
            até que o tempo e esforço
os desfaçam.

As mãos entraram em jogo só muito depois
o gosto a voz o cheiro primeiro
e o olhar em tudo, mesmo
neste teatro de sombras:

insatisfeitos enquanto tudo repousa
os olhos leem nas pálpebras
            o livro da noite

e porque são eles que trazem a primavera ao corpo
só os olhos não se saciam.



naquele início de 2013, o Adriano Scandolara, poeta maldito, tradutor, culpado pelo Escamandro, autor do Lira do Lixo, me trouxe esse poema e a gentileza de sempre. há uma violência sutil e terrena no que esse malungo se propõe a fazer em seus escritos. é qualquer coisa que suja, pesa, clareia; como se diz? poesia. 

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