quarta-feira, 11 de março de 2015

entre um passado e outro, a Ana C e a minha loucura abraçando alguma lucidez, o caos, um amor sem nome, encontrei esses versos escritos lá em 2007, 08, 09, 10. 'coisa híbrida', vou dizendo enquanto leio e, repare só a ironia da vida, equilibro um velho cigarro nas mãos.   


Rascunho

é como provocar o corpo que é seu e do outro também e pedir que ele
se achegue aos poucos urgência se tornando limite tensão sentido instante
instante mesmo esse perigo de escrever que desfaz o enredo e refaz quando
digo que sim sim é tentando fugir que escrevo porque me dói enxergar o que há
por dentro mas eu percebo me percebo e ninguém me perdoará por nada se ainda
tenho a palavra amordaçada em meu grito mudo grito muda eu quero o risco e o tempo
maior que as horas enquanto escrevo meu bem escrevo e canto o meu
nome branco fundo ou não deveria ter deixado não
deveria ter permanecido onde há teus livros tua rima tuas mãos
escreve
escreve que eu continuo
por absoluta necessidade de ser
querendo te explicar a forma sim a forma de meu corpo se
desalinhando no anverso música que me lembra jazz esse não-mistério sobre mim
que eu já sei há tanto tempo e que se descobre n’isso que é divino e certo e errado e
significa sempre os mesmos passos
não eu não entendo
escreve
escreve que eu continuo
e me revelo aos pedaços porque não consigo ser inteira

estou longe de tanta coisa e perto que às vezes fico meio fatigada e me
canso das certezas dos outros que são apenas outros mas eu preciso
sair cortar os pulsos pular o muro a janela a sensação de sufoco
me apertando a vontade de escrever mundo

que é de-dentro e é tão outra coisa tão outra coisa

______

é nessa poesia onde me sustento
derramada em cada hora chão cinza

lugar
que se achega confunde permanece
em nosso caminho de um:
a imensa vontade de
(palavra e corpo)
apenas ser.

______

Ponte

um pouco de chão
e divino (como quem sai
de feixe nas mãos), escolho
o delírio e tudo

sendo paz
sendo apenas paz

enquanto canto.

______

Delirante

Abro o meu peito
proscrito
e nu
se for assim,

o mundo lá fora
e a Vida, toda essa,
se libertando em mim,
mas não estou só –

permito-me
até o exato tamanho de tuas mãos.

______

again, again, again

I

Eu sei que estou dando voltas e
voltas em torno do mesmo lugar, mas, queira saber, é tudo
o que me resta. Minha vida tão cheia de verdades tão cheia de.
Perceba, eu não tenho verdade alguma. Tudo depende da
palavra, entende? Vezenquando até minto e é tão constante
que todos acreditam por pura necessidade humana.
Não, por covardia, eu diria. Porque sempre volto carregada de mundo,
carrego o mundo inteiro e não só
Eu morri também, e faz tanto
que estou no meio do quase que quase sou apenas uma
vida à parte a qual sempre pertenci e que insiste em mim por
mim errando caminho
Não, eu não me importo não me importo e me derramo corpo –
sobre corpo entre coxas noite velha ausência que vem uma
após outra que me chega
É que eu preciso ferir e doer assim como preciso, e preciso somente
querendo me limitar e me devolver à beira,
já que estou mesmo no fim e no fim tudo se inicia, espera.

II

Você sabe que eu não costumo permanecer
que gosto de violentar a poesia no meio em golpe frio
como
se isso fosse mudar alguma coisa


mas nunca muda nunca muda

III

Eu não sou tão forte assim, baby, I cry all the time.
Os dias pesam. Minhas pernas pesam.
Estou parada rumo a qualquer lugar que é exatamente aqui.
And each time I tell myself that I, well I can’t
nada, eu não consigo suportar mais,
but when you hold me in your arms, I’ll sing it once again,
mais uma vez mais uma vez mais uma vez mais uma vez,
querido, eu estou nua mais uma vez. Na verdade,

funciona assim:
estou de encontro a tudo isso
enquanto procuro as luvas que deixei para trás,
e às vezes permaneço
sem deixar vestígio algum.

____

é para você que escrevo
(ou talvez)

ainda aquele primeiro dia todas as outras palavras e os olhos dele nada mais que um blues e era madrugada o sexo sobre às vezes ao contrário e era sempre a mesma maneira sim a maneira como me tocava e eu imaginava nossas possíveis conversas e não-se-sabe-mais-o-quê como sair daquele lugar que não é mais seu mas a língua as mãos antes do gesto sufoca a vontade de todos os dias fingia qualquer coisa que não queria esperava por ele por Isso que não reconheço mais tanto nada tanta poesia essa espécie de amor sem nome em tudo o que temos você diz qualquer coisa que me atrai e é sempre em jazz o filme o livro e o meu cabelo preso que te lembra qualquer desculpa pra disfarçar desejo qualquer desejo entre nós dois o que me persegue agora dois estranhos desejando a mesma cama e corpo ainda sobre o meu teu gozo teu engano que me cansa em violência e em mordidas pelos nossos impossíveis encontros e nada disso é verdade nem as tuas promessas nem os teus dedos sujos de cigarro e poesia as mesmas palavras de todas as vezes em que você começa a percorrer as minhas certezas e eu digo não e repito e repito mais duas vezes mas nunca é o que quero dizer você sabe o quanto estou inteira finalmente inteira na verdade é você quem me pergunta e permanece mas o que quero é você bem perto feito agora quando te deparo entre minhas pernas e

entendo que te amo assim estranha assim esquiva de um amor seco que me confessa todas as tardes e eu confesso aquilo que sou talvez ainda mais 

______


perdemos o passo, meu bem
o dia ao nosso redor o mundo
o tempo que é aqui e é como se
talvez ainda dormíssemos  ou
morrêssemos por nós mesmos
cheirando a sexo e vinho
poesia pelas bordas, às vezes corpo
às vezes
somos nós, apenas
tão perto tão perto
quase a ponto de chegar
beijar em todos os lábios
andar em todas as ruas como
se isso fosse paz – ou quem sabe
mas gritamos e ferimos
: feito palavras sujas
em silêncio, mais nada

______


Almost blue

qualquer coisa como. a vontade de não saber.
a ânsia, as linhas, o medo transgredido,
a palavra interrompida, o gesto. feito quem prova o próprio veneno.
puro reverso, de quem quebra por dentro e morre também.
o que resta de mim é essa sombra sem contornos,
espécie de nada que não se compreende e não se contraria.
a não ser, você.
você que não é bem de onde eu vim. que é pra onde eu vou,
consegue entender?
minha cabeça dá voltas e me distraio,
entre cá e lá.
entre nós e eles.
mas me diz o caminho
e a sorte e o grito e o medo e a poesia insana,
certa leveza pesando nas bordas
que é quando tento me desvencilhar desse lugar,
corpo em retalhos de uma vida que não anda mais.
por isso os meus pés escrevem a ausência,
por isso a solidão em tudo o que vejo.
é cedo pra dizer qualquer coisa como.
não escrevo, então. o desejo sempre vem na pontada da noite.
estou livre e só. almost blue.

e é tão raso o contrário.

______


(eu não vou sobreviver a nós dois, ainda que)
cada palavra arranca uma parte e fere cada vez que desejo escrevo ca-da-vez:
tua palavra em minha loucura. tua palavra, loucura.
isso emerge de mim feito essa vontade quase perto de te rasgar da minha distância,
de uns medos que são meus, uns sustos. por vezes você se move enquanto eu – que me fosse escuro todas as suas mentiras – nos movemos entre trânsito e avenidas e.
sinto sua falta, sinto sede, quase paro:
não quero mais soprar com sutileza as suas feridas
não quero que a sua poesia doa mais em mim
meu amor não tem caminhos, o seu se desfaz em outro tipo de azul
tudo isso é apenas noite que desaba em dias dias dias
                                                           enquanto

mal me vejo em teus olhos tão claros

______


                 entre a permanência e a despedida
                      um abismo imenso. a rodar pela casa
tão cheia de nada, tão cheia
de-dentro de mim
                      os abismos são leves. superfície
                                                      silêncio
em suspenso                   silêncio
que não precede a mudez
                                           ameaça
e me rasga

______


que se rasga

meia noite, algumas linhas, vontade

demoro a te escrever e não imagino motivos assim como desconheço o que vem de-dentro que tanto nos interrompe e atravessa meu corpo seu impedindo poesia vertigem,

Temos nos enganado, meu bem, nos permitido a tudo o que não queremos a ponto de. Acabou. Alguma coisa dentro da gente sempre sabe quando acaba ou quando começa ou quando não deveria nem mesmo ter acontecido. Você precisa sair de casa, beber mais, fumar mais, você precisa foder, foder e ser inteiro, entende?  Eu ainda tenho que encontrar novas formas de me decepcionar, tenho que expurgar esses nós em minha garganta e dizer como me cansei de você, do seu cabelo cortado, das cortinas sujas de seu quarto onde costumávamos ser perversos até o primeiro espasmo. Há uma janela bem perto agora e tenho vontade de pular, meu velho plano de sair de cena num grande gesto. A morte deve ser mais simples, assim, de leve, mas sou amadora e tenho ares de mulher solitária com vinte e poucos anos em busca de um amor feito esse que temos que tivemos que estamos prestes a perder.

eu me olho por muito tempo todos os dias a essa mesma hora como quem descobre mentiras: eu não quero um amor. Te escrevo enquanto tua vida é outra, alguma coisa aqui dentro não termina nunca



(Don't Explain, na voz da Nina)
dezembro 24, 2009
Por esses (des)encontros, Carlos, e nomes que nunca nos pertenceram, continuo a te escrever. Mesmo feita de cansaços e memórias, continuo. Há tanta poesia entre nós e é tão mais difícil. Isso que nos faz, o movimento, transgressão, coisa de corpo, entende? Meu gesto te dilacerando em ecos amortecidos. Escrever é um pouco de tesão, Carlos, você sabe. Tesão, dor, trauma, um amor sujo, errado, um coração aos pedaços por causa de um filho da puta qualquer. Eu não sou uma mulher muito amável, Carlos. Deixo de ser inteira tantas vezes e é sempre depois do jantar, daquelas três taças de vinho e versos embriagados pela casa. Mas no amamos, ainda assim nos amamos em cada canto, o mundo todo, tão perto. Dias que não duram mais que uma noite, apesar de você nunca ter o que fazer pela manhã. Por favor, não comente com ninguém. Eu ainda prefiro o nosso caso assim, silencioso, secreto. É verdade que isso tem nos causado problemas, todos esses corpos nos atravessando, tantos amantes, e você em seu ciúme infernal. Quero muito ficar e encontrar teu dia – tenho medo. E tenho escrito tão amargamente, tão pouco. Eu mesma estou meio amarga em minhas horas noturnas, no coincidir do desejo, lendo a Hilda, a nossa – em carne e osso, laboriosa, lasciva. Feito nós, desde o primeiro poema, nossos passos no corredor, você segurando o cigarro de soslaio entre os dedos, minhas pernas esquivas. Era tão tarde, Carlos, e eu não pude sair, ainda não.
Mas algumas coisas mudaram de lugar e não preciso te explicar. Faz um ano que ensaio te escrever, algo feito uma carta, e você me intimida. Teus amigos, teus outros amores, todos esses que te escrevem. Só que apenas meu corpo te faz bem, Carlos, em linhas brancas e versos como qualquer outro. Apenas o meu corpo. Menino, menino, menino, permaneça em mim. Toma-me. Ou vá gritar meu nome fodendo com quem te aparecer. Será sempre nós dois. Por mais que.

Escuto a Nina pela quinta vez e isso me dói tanto. Não queria dormir, apenas doer até me ver crua em frente ao espelho e chorar todos esses dias jogados no chão. Não me deixe fechar as janelas, beber água, arrumar a cama, sair de casa, me violentar. Eu quero o risco, a loucura em tudo. Só não me peça para escrever mais, tenho detestado isso, Carlos, porque me desnuda e arranca pedaços. Escrevo. Estou tão áspera, mas escrevo numa espécie de fuga dessas nudezas em mim, desses fardos. Te escrevo, também. Você me alivia e me trava um romantismo piegas que eu tento, de certa forma, transformar em pacto estranho, amor sem nome. Isso já não tem importância. Ouvimos tantas vezes nossos desvios que nos perdemos suando em outros a-casos e camas pelas noites de silêncio e vontade. Não sei se conseguiremos, Carlos, mas eu quero te encontrar comigo.




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