Rascunho
é como
provocar o corpo que é seu e do outro também e pedir que ele
se
achegue aos poucos urgência se tornando limite tensão sentido instante
instante
mesmo esse perigo de escrever que desfaz o enredo e refaz quando
digo que
sim sim é tentando fugir que escrevo porque me dói enxergar o que há
por
dentro mas eu percebo me percebo e ninguém me perdoará por nada se ainda
tenho a
palavra amordaçada em meu grito mudo grito muda eu quero o risco e o tempo
maior que
as horas enquanto escrevo meu bem escrevo e canto o meu
nome
branco fundo ou não deveria ter deixado não
deveria
ter permanecido onde há teus livros tua rima tuas mãos
escreve
escreve
que eu continuo
por
absoluta necessidade de ser
querendo
te explicar a forma sim a forma de meu corpo se
desalinhando
no anverso música que me lembra jazz esse não-mistério sobre mim
que eu já
sei há tanto tempo e que se descobre n’isso que é divino e certo e errado e
significa
sempre os mesmos passos
não eu
não entendo
escreve
escreve
que eu continuo
e me
revelo aos pedaços porque não consigo ser inteira
estou
longe de tanta coisa e perto que às vezes fico meio fatigada e me
canso das
certezas dos outros que são apenas outros mas eu preciso
sair
cortar os pulsos pular o muro a janela a sensação de sufoco
me
apertando a vontade de escrever mundo
que é de-dentro
e é tão outra coisa tão outra coisa
______
é nessa poesia onde me sustento
derramada em cada hora chão cinza
derramada em cada hora chão cinza
lugar
que se achega confunde permanece
em nosso caminho de um:
a imensa vontade de
(palavra e corpo)
em nosso caminho de um:
a imensa vontade de
(palavra e corpo)
apenas ser.
______
Ponte
um pouco de chão
e divino (como quem sai
de feixe nas mãos), escolho
o delírio e tudo
e divino (como quem sai
de feixe nas mãos), escolho
o delírio e tudo
sendo paz
sendo apenas paz
sendo apenas paz
enquanto canto.
______
Delirante
Abro o meu peito
proscrito
e nu
se for assim,
proscrito
e nu
se for assim,
o mundo lá fora
e a Vida, toda essa,
se libertando em mim,
mas não estou só –
e a Vida, toda essa,
se libertando em mim,
mas não estou só –
permito-me
até o exato tamanho de tuas mãos.
______
again, again, again
I
Eu sei que estou dando voltas e
voltas em torno do mesmo lugar, mas, queira saber, é tudo
o que me resta. Minha vida tão cheia de verdades tão cheia de.
Perceba, eu não tenho verdade alguma. Tudo depende da
palavra, entende? Vezenquando até minto e é tão constante
que todos acreditam por pura necessidade humana.
Não, por covardia, eu diria. Porque sempre volto carregada de mundo,
carrego o mundo inteiro e não só
Eu morri também, e faz tanto
que estou no meio do quase que quase sou apenas uma
vida à parte a qual sempre pertenci e que insiste em mim por
mim errando caminho
Não, eu não me importo não me importo e me derramo corpo –
sobre corpo entre coxas noite velha ausência que vem uma
após outra que me chega
É que eu preciso ferir e doer assim como preciso, e preciso somente
querendo me limitar e me devolver à beira,
já que estou mesmo no fim e no fim tudo se inicia, espera.
II
Você sabe que eu não costumo permanecer
que gosto de violentar a poesia no meio em golpe frio
como
se isso fosse mudar alguma coisa
mas nunca muda nunca muda
III
Eu não sou tão forte assim, baby, I cry all the time.
Os dias pesam. Minhas pernas
pesam.
Estou parada rumo a qualquer
lugar que é exatamente aqui.
And each time I tell myself that I,
well I can’t
nada, eu não consigo suportar
mais,
but when you hold me in your arms,
I’ll sing it once again,
mais uma vez mais uma vez mais
uma vez mais uma vez,
querido, eu estou nua mais uma
vez. Na verdade,
funciona assim:
estou de encontro a tudo isso
enquanto procuro as luvas que
deixei para trás,
e às vezes permaneço
sem deixar vestígio algum.
_____
é para você que
escrevo
(ou talvez)
(ou talvez)
ainda aquele
primeiro dia todas as outras palavras e os olhos dele nada mais que um blues e
era madrugada o sexo sobre às vezes ao contrário e era sempre a mesma maneira
sim a maneira como me tocava e eu imaginava nossas possíveis conversas e
não-se-sabe-mais-o-quê como sair daquele lugar que não é mais seu mas a língua as
mãos antes do gesto sufoca a vontade de todos os dias fingia qualquer coisa que
não queria esperava por ele por Isso que não reconheço mais tanto nada tanta
poesia essa espécie de amor sem nome em tudo o que temos você diz qualquer
coisa que me atrai e é sempre em jazz o filme o livro e o meu cabelo preso que
te lembra qualquer desculpa pra disfarçar desejo qualquer desejo entre nós dois
o que me persegue agora dois estranhos desejando a mesma cama e corpo ainda
sobre o meu teu gozo teu engano que me cansa em violência e em mordidas pelos
nossos impossíveis encontros e nada disso é verdade nem as tuas promessas nem
os teus dedos sujos de cigarro e poesia as mesmas palavras de todas as vezes em
que você começa a percorrer as minhas certezas e eu digo não e repito e repito
mais duas vezes mas nunca é o que quero dizer você sabe o quanto estou inteira
finalmente inteira na verdade é você quem me pergunta e permanece mas o que
quero é você bem perto feito agora quando te deparo entre minhas pernas e
entendo que te
amo assim estranha assim esquiva de um amor seco que me confessa todas as
tardes e eu confesso aquilo que sou talvez ainda mais
______
perdemos
o passo, meu bem
o dia ao nosso redor o mundo
o tempo que é aqui e é como se
talvez ainda dormíssemos ou
morrêssemos por nós mesmos
cheirando a sexo e vinho
poesia pelas bordas, às vezes corpo
às vezes
somos nós, apenas
tão perto tão perto
quase a ponto de chegar
beijar em todos os lábios
andar em todas as ruas como
se isso fosse paz – ou quem sabe
mas gritamos e ferimos
: feito palavras sujas
em silêncio, mais nada
______
Almost blue
qualquer
coisa como. a vontade de não saber.
a ânsia, as linhas, o medo transgredido,
a palavra interrompida, o gesto. feito quem prova o próprio veneno.
puro reverso, de quem quebra por dentro e morre também.
o que resta de mim é essa sombra sem contornos,
espécie de nada que não se compreende e não se contraria.
a não ser, você.
você que não é bem de onde eu vim. que é pra onde eu vou,
consegue entender?
minha cabeça dá voltas e me distraio,
entre cá e lá.
entre nós e eles.
mas me diz o caminho
e a sorte e o grito e o medo e a poesia insana,
certa leveza pesando nas bordas
que é quando tento me desvencilhar desse lugar,
corpo em retalhos de uma vida que não anda mais.
por isso os meus pés escrevem a ausência,
por isso a solidão em tudo o que vejo.
é cedo pra dizer qualquer coisa como.
não escrevo, então. o desejo sempre vem na pontada da noite.
estou livre e só. almost blue.
e é tão raso o contrário.
a ânsia, as linhas, o medo transgredido,
a palavra interrompida, o gesto. feito quem prova o próprio veneno.
puro reverso, de quem quebra por dentro e morre também.
o que resta de mim é essa sombra sem contornos,
espécie de nada que não se compreende e não se contraria.
a não ser, você.
você que não é bem de onde eu vim. que é pra onde eu vou,
consegue entender?
minha cabeça dá voltas e me distraio,
entre cá e lá.
entre nós e eles.
mas me diz o caminho
e a sorte e o grito e o medo e a poesia insana,
certa leveza pesando nas bordas
que é quando tento me desvencilhar desse lugar,
corpo em retalhos de uma vida que não anda mais.
por isso os meus pés escrevem a ausência,
por isso a solidão em tudo o que vejo.
é cedo pra dizer qualquer coisa como.
não escrevo, então. o desejo sempre vem na pontada da noite.
estou livre e só. almost blue.
e é tão raso o contrário.
______
(eu não vou sobreviver a nós dois,
ainda que)
cada palavra arranca uma parte e
fere cada vez que desejo escrevo ca-da-vez:
tua palavra em minha loucura. tua palavra, loucura.
isso emerge de mim feito essa
vontade quase perto de te rasgar da minha distância,
de uns medos que são meus, uns
sustos. por vezes você se move enquanto eu – que me fosse escuro todas as suas
mentiras – nos movemos entre trânsito e avenidas e.
sinto sua falta, sinto sede, quase
paro:
não quero mais soprar com sutileza
as suas feridas
não quero que a sua poesia doa mais
em mim
meu amor não tem caminhos, o seu se
desfaz em outro tipo de azul
tudo isso é apenas noite que desaba
em dias dias dias
enquanto
mal me vejo em teus olhos tão claros
______
entre a permanência e a despedida
um abismo imenso. a rodar pela casa
tão cheia de nada, tão cheia
de-dentro de mim
os abismos são leves. superfície
silêncio
em suspenso silêncio
que não precede a mudez
ameaça
e me rasga
um abismo imenso. a rodar pela casa
tão cheia de nada, tão cheia
de-dentro de mim
os abismos são leves. superfície
silêncio
em suspenso silêncio
que não precede a mudez
ameaça
e me rasga
______
que se rasga
meia noite, algumas
linhas, vontade
demoro a te escrever e não
imagino motivos assim como desconheço o que vem de-dentro que tanto nos
interrompe e atravessa meu corpo seu impedindo poesia vertigem,
Temos nos enganado, meu
bem, nos permitido a tudo o que não queremos a ponto de. Acabou. Alguma coisa
dentro da gente sempre sabe quando acaba ou quando começa ou quando não deveria
nem mesmo ter acontecido. Você precisa sair de casa, beber mais, fumar mais,
você precisa foder, foder e ser inteiro, entende? Eu ainda tenho que
encontrar novas formas de me decepcionar, tenho que expurgar esses nós em minha
garganta e dizer como me cansei de você, do seu cabelo cortado, das cortinas
sujas de seu quarto onde costumávamos ser perversos até o primeiro espasmo. Há
uma janela bem perto agora e tenho vontade de pular, meu velho plano de sair de
cena num grande gesto. A morte deve ser mais simples, assim, de leve, mas sou
amadora e tenho ares de mulher solitária com vinte e poucos anos em busca de um
amor feito esse que temos que tivemos que estamos prestes a perder.
eu me olho por muito tempo
todos os dias a essa mesma hora como quem descobre mentiras: eu não quero um
amor. Te escrevo enquanto tua vida é outra, alguma coisa aqui dentro não
termina nunca
(Don't Explain, na voz da Nina)
dezembro 24, 2009
Por esses (des)encontros, Carlos, e nomes que nunca nos pertenceram, continuo a te escrever. Mesmo feita de cansaços e memórias, continuo. Há tanta poesia entre nós e é tão mais difícil. Isso que nos faz, o movimento, transgressão, coisa de corpo, entende? Meu gesto te dilacerando em ecos amortecidos. Escrever é um pouco de tesão, Carlos, você sabe. Tesão, dor, trauma, um amor sujo, errado, um coração aos pedaços por causa de um filho da puta qualquer. Eu não sou uma mulher muito amável, Carlos. Deixo de ser inteira tantas vezes e é sempre depois do jantar, daquelas três taças de vinho e versos embriagados pela casa. Mas no amamos, ainda assim nos amamos em cada canto, o mundo todo, tão perto. Dias que não duram mais que uma noite, apesar de você nunca ter o que fazer pela manhã. Por favor, não comente com ninguém. Eu ainda prefiro o nosso caso assim, silencioso, secreto. É verdade que isso tem nos causado problemas, todos esses corpos nos atravessando, tantos amantes, e você em seu ciúme infernal. Quero muito ficar e encontrar teu dia – tenho medo. E tenho escrito tão amargamente, tão pouco. Eu mesma estou meio amarga em minhas horas noturnas, no coincidir do desejo, lendo a Hilda, a nossa – em carne e osso, laboriosa, lasciva. Feito nós, desde o primeiro poema, nossos passos no corredor, você segurando o cigarro de soslaio entre os dedos, minhas pernas esquivas. Era tão tarde, Carlos, e eu não pude sair, ainda não.
Mas algumas coisas mudaram de lugar e não preciso te explicar. Faz um ano que ensaio te escrever, algo feito uma carta, e você me intimida. Teus amigos, teus outros amores, todos esses que te escrevem. Só que apenas meu corpo te faz bem, Carlos, em linhas brancas e versos como qualquer outro. Apenas o meu corpo. Menino, menino, menino, permaneça em mim. Toma-me. Ou vá gritar meu nome fodendo com quem te aparecer. Será sempre nós dois. Por mais que.
Escuto a Nina pela quinta vez e isso me dói tanto. Não queria dormir, apenas doer até me ver crua em frente ao espelho e chorar todos esses dias jogados no chão. Não me deixe fechar as janelas, beber água, arrumar a cama, sair de casa, me violentar. Eu quero o risco, a loucura em tudo. Só não me peça para escrever mais, tenho detestado isso, Carlos, porque me desnuda e arranca pedaços. Escrevo. Estou tão áspera, mas escrevo numa espécie de fuga dessas nudezas em mim, desses fardos. Te escrevo, também. Você me alivia e me trava um romantismo piegas que eu tento, de certa forma, transformar em pacto estranho, amor sem nome. Isso já não tem importância. Ouvimos tantas vezes nossos desvios que nos perdemos suando em outros a-casos e camas pelas noites de silêncio e vontade. Não sei se conseguiremos, Carlos, mas eu quero te encontrar comigo.
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