quinta-feira, 14 de agosto de 2014

(escrevo e, ô 'sweet jane')

18 horas. Entro no café. Estou só e me faço altiva. Há dois homens sentados. O mais velho, cabelos brancos, me olha com curiosidade. Talvez... Esqueço. Perto da janela, outras pessoas conversam sobre o que, tanto faz. Fico dividida entre a mesa posicionada à direita e a outra, no canto, sob a luz. Escolho essa. Sento, coloco a bolsa ao lado, abro um livro qualquer... Esqueço. O homem mais velho me olha novamente. Talvez se... Esqueço. Busco o maço e o isqueiro. Saio. Não há ninguém e estou na porta. Abaixo a cabeça, os ombros, a fumaça... o gosto na boca. Ela aparece nesta distração, com a franja cortada. Em uma das mãos segura também um cigarro; na outra, uma sacola da livraria em que trabalha, perto dali. Conversa em tom aberto, lembra da tarde, dos livros bagunçados, do cansaço de toda noite. Uma palavra, um trago, observo. Minha fala é menor. Ainda estamos paradas na porta. O tempo leva a vida desse cigarro.
Você me diz sobre não jogar as bitucas no chão, que começou esse hábito a partir de uma viagem que fez há poucos dias. Diz ainda que carrega na bolsa um saquinho para tal fim. Acho engraçado e começo esse texto. O café fecha às 19 horas, precisamos entrar. Você aceita o lugar que escolhi. Compartilhamos uns silêncios parecidos, uma euforia destoante, a mente perdida. Você tem 20 anos e eu, sete a mais. Me confundo. O livro que ia ler há pouco é o meu primeiro do Nietzsche e você me conta que o descobriu aos 15. Sou mínima, de passado estranho, e você carrega o mundo há tanto tempo. Não nos sabíamos, mas agora. A conversa se desvenda de uma forma que me agrada. Falamos das fotografias, das flores amarelas que serão compradas no domingo e do que estamos tentando ser, sem talvez perceber o que já somos. Você olha para baixo, meio de lado, o sorriso é imenso. Não sei o que pensa.
O sinal está vermelho, ela atravessa a rua e, enquanto me movo em outro caminho, entra no apartamento de luz acesa.       



17.07.2014

Um comentário:

  1. Sentado num café, lendo A náusea de Sartre. Num intervalo para assimilar aquele mar existencialista, fuço o twitter, leio, como sempre, o link de seu blog, me deparo com...

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