Mas não vivemos nós assim, todo o tempo, lacerando-nos docemente? Não,
não vivemos assim, ela teria querido, porém uma vez mais voltei a
instalar a falsa ordem que estimula o caos, a fingir que me entregava a
uma vida profunda da qual só tocava a terrível água com a ponta do pé.
Existem rios metafísicos, ela nada por eles como aquela andorinha está
nadando pelo ar, girando alucinada, em torno do campanário, deixando-se
cair para melhor levantar-se com o impulso. Eu descrevo e defino e
desejo esses rios, ela nada por eles. Eu os procuro, os encontro,
olho-os da ponte, e ela nada por eles. E, sem o saber, igualzinha a
andorinha. Não precisa saber, como eu; pode viver na desordem que é a
sua ordem misteriosa.
(cap 21, o jogo da amarelinha)
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